sexta-feira, 25 de maio de 2012

On the Road: o manuscrito original - Impressões (quase) Espontâneas

Interrompi Dom Quixote para ler este livro.

Texto escrito em 24 de maio de 2012.

On the Road - Impressões quase Espontâneas

Faz dois dias que terminei a leitura do livro On the Road: o Manuscrito Original, publicado no Brasil pela L&PM, com tradução de Eduardo Bueno e Lúcia Brito. Resolvi, então, que deveria escrever minhas impressões acerca do livro, já que este me agradou imensamente, apesar de o impulso inicial para lê-lo ter sido menos a curiosidade pela obra em si do que toda a mítica que envolve sua criação e sua relevância enquanto símbolo de uma geração. A Geração Beat.

Mas, na verdade, este é o segundo texto que escrevo. O primeiro, escrito pouco após o termino da leitura, ficou inacabado porque eu não conseguia encontrar meios de continuá-lo. Aliás, meu primeiro depoimento veio sendo ensaiado desde que estava na metade da leitura do livro e, talvez por isso, tenha ficado truncado - e não é isso que o livro de Jack Kerouac, principalmente esta primeira versão manuscrita de livro, merece, pois sua escrita é espontânea e flui com tamanha naturalidade que resolvi, agora, de supetão, expor minhas impressões tentando emular o “mesmo” impulso criativo de Kerouac. Apesar de que, este texto que está agora publicado, certamente passou por uma ou mais revisões, pois não revisá-lo seria transgredir muito a mim mesmo.

Então, vejamos, o que me levou a ler o livro: como já disse, foi toda a mitologia que o envolve e, também, o momento oportuno, já que o filme dirigido por Walter Salles e baseado na versão final do livro publicada do por Kerouac estava próximo de estrear. Na verdade, estreou esta semana no festival de Canes. Mas, que mítica é essa? Há muitos elementos, dentre eles o fato de o livro ter sido baseado em viagens reais vividas pelo autor, indo e vindo, de Leste para Oeste e de Oeste para Leste pelos EUA e, por fim, para o Sul, até o México. Aliás, os personagens do manuscrito original têm os nomes reais daqueles que viveram os fatos narrados. Mas o grande personagem mítico, e responsável pela grande lenda (real, diga-se de passagem) que envolve a escrita deste livro, é o próprio manuscrito.

Em 1951, para escrever as aventuras vividas nos últimos anos, Kerouac pretendia criar uma nova forma de escrita, algo que reinventasse o romance tradicional e não ficasse preso aos seus dogmas, algo que fizesse o conteúdo subjugar a forma. Para conseguir este efeito ele usou um imenso rolo de papel, que foi cortado para se encaixar na máquina de escrever e livrá-lo da tarefa de interromper o fluxo criativo para trocar as páginas. Isto permitiu uma escrita contínua e espontânea, tal qual as ideias surgem na mente. Tão contínua, aliás, que não foi sequer paragrafada, resultando num imenso bloco de texto com mais de 300 páginas (na versão Pocket que li). Então, o motivo principal foi a curiosidade em descobrir como funcionava a escrita de um autor, em sua essência, e nada melhor para isso que ler o texto em sua versão mais crua.

On the Road - Impressões quase Espontâneas

Mas, depois de começada a leitura, percebi que haviam mais motivos para ler tal obra, pois o texto é realmente valioso e, mesmo numa versão não revisada, flui com tamanha naturalidade que a leitura não para. O ritmo é frenético, assim como os personagens, e os acontecimentos se sucedem de maneira tão natural que é impossível parar a leitura num ponto e retomá-la, em seguida, a partir dali. É preciso voltar algumas linhas para se reencontrar e reencontrar os personagens - em algum lugar dos EUA. Obviamente a falta de parágrafos e as informações às vezes jogadas fora de contexto - para complementar algo já narrado - aumentam a sensação de que não há pontos de parada; mas estou inclinado a acreditar que a versão final, mesmo paragrafada, não se distancie muito disto.

Por ser escrito em primeira pessoa, não é difícil ser levado a acreditar que se trata, tão somente, dos relatos de viagens de Kerouac, mas sua escrita é tão poética que aquilo que está retratado lá não pode ser a realidade, ou memórias, mas tão somente a pura e crua literatura. A maneira como tudo é contado, as descrições (principalmente psicológicas, por meio das impressões do narrador) dos personagens, e o próprio narrador são impressionastes e transbordam naturalidade, fluidez e excitação. A figura do narrador, aliás, merece estudos investigativos que, certamente, já foram feitos aos montes.

Ah, a história. Jack Kerouac resolve viajar de Nova York até São Francisco, só com uma mochila nas costas, pegando carona e seguindo pela Rota 66. Mas não foi uma, mas quatro viagens feitas por Kerouac e se ele pode ser chamado de “protagonista”, quem rouba a cena, mesmo quando está fora dela, é Neal Cassidy. É Neal quem desencadeia grande parte dos acontecimentos do livro, com sua personalidade frenética e suas mulheres. Muitas mulheres. Outros personagens importantes aparecem e desaparecem ao longo do texto, entre eles o também famoso poeta da geração beat, Allen Ginsberg. É a geração “sexo, drogas e jazz” percorrendo o país de carro ou de carona e vivendo a vida livremente, num momento pós-guerra em que as crenças numa sociedade tradicional já não faziam sentido para todos e alguns preferiram dar um Uivo de liberdade.

Resta saber se Sal Paradise e Neal Cassidy (os nomes que Kerouac deu, respectivamente a ele próprio e a seu amigo Neal, no texto final) estão bem representado no cinema, mas isto só descobrirei quando assistir ao filme. E, resta também, ler a versão final do livro, que foi publicada apenas em 1957, com as revisões a alterações feitas (algumas a pedido dos editores) pelo autor, mas isto fica para outro momento, se ele vier.

On the Road - Impressões quase Espontâneas

É tempo de voltar ao Cavaleiro da Triste Figura.


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